segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

As lições de marketing de Michel Teló

O fato em si não está na pessoa, mas no conceito que ela representa. Michel Teló não é mais uma pessoa, mas uma marca, plena de seus atributos, muito bem definidos, no imaginário popular. Ivete Sangalo, Xuxa, Luan Santana, Sandy & Junior... Todos são marcas. Assim como o ex-presidente Lula é uma marca dotada dos mais fortes atributos, que mantém, até hoje, bastante elevados os seus índices de consideração, preferência, recompra e fidelidade. E porque não dizer como o Brasil, que é uma marca que vem conquistando lugares bem mais ensolarados e de prestígio?
Michel Teló não faz pré-teste da sua música, mas é bastante comum fazermos pré-testes de filmes antes de serem veiculados na TV. A ideia é avaliar o material e saber se o consumidor vai gostar ou não. Não quero julgar a eficácia do pré-teste, mas acredito que mais do que uma peça publicitária criativa, as marcas precisam se apropriar de elementos que sejam relevantes para a audiência, e não necessariamente divertidos ou engraçados. Assim, uma ação publicitária será mais ou menos engajadora se os elementos que fizerem parte daquela comunicação forem mais ou menos pertinentes à realidade cultural das pessoas. Desse modo, apropriar-se de um código cultural é a chave para uma comunicação de marca bem-sucedida. E muita gente acaba fazendo isso por acaso, assim como provavelmente Michel Teló e Luisa Marilac fizeram (Pohannn!).


Mas, de fato, isso não é tarefa fácil ou tampouco deselegante, como diria Sandra Annenberg, especialmente para criativos acostumados ao glamour de Cannes e salas bem refrigeradas com paredes recobertas de pôsteres coloridos em endereços estilosos. Tudo muito bem distante do café da manhã regado a carne de bode do Recife ou do calor úmido dos trópicos amazonenses. O Brasil, meu caro leitor, é muito vasto para termos a pretensão de falar a mesma língua para todos os nossos povos. Por isso, defendo que marcas precisam de autonomia para adequar sua comunicação em função de sua cultura regional, porque relacionamentos são feitos localmente, por mais que a Globo pense o contrário!
Dizer que Michel Teló não faz parte e não representa também, neste momento, a cultura brasileira, é ser tão puritano quanto os católicos que queimaram bruxas há anos. Seja Gretchen, Legião Urbana ou Michel Teló, todos fazem parte do nosso código cultural. Ignorar isso é atestar a própria ignorância, bairrismo, regionalismo ou, pra ser mais direto, isso é puro preconceito! Posso não gostar de Michel Teló, mas confesso que tenho ouvido incansavelmente o "ai, se eu te pego" por aí. Então, aproveite o bom momento da música para tirar algum proveito dela. Afinal de contas, lá no fundo, bem que você gostaria que sua marca ou o presidente da sua empresa estivessem estampando a capa da revista Época, não é verdade? Muita gente que está criticando a atitude da revista Época age instintivamente por puro despeito, porque não se pode negar que Michel Teló desfruta, hoje, de uma posição muito privilegiada e invejada em termos de saúde de marca, algo que milhões em comunicação, por anos, não conseguiram resolver para um grande punhado de marcas.

Se as pessoas se engajaram com o Michel Teló, certamente existe algo interessante para ser observado nesse fenômeno. Para se ter uma noção do sucesso, dias depois do cantor lançar a versão em Inglês "Oh, If I Catch You" do seu mais novo hit, a música passou a ocupar o topo das paradas do iTunes em muitos países europeus, ultrapassando artistas como Coldplay e Adele. Outro fato importante é que a música também se engajou com um código cultural muito forte no mundo: o futebol! Não me refiro somente ao vídeo do Neymar fazendo a dancinha no vestiário (que está bombando no YouTube), mas também aos jogadores brasileiros, na Europa, que começaram a imitar a mesma coreografia depois dos seus gols. A marca Michel Teló emprestou um código cultural para lançar um sucesso sertanejo, que emprestou outro código cultural – o futebol – para se alastrar entre marcas fortes – os jogadores – que dão e emprestam sua imagem mutuamente. É uma cadeia alimentar mercadológica perfeita.
Talvez você esteja se perguntando agora: o que devo fazer para ter sucesso na minha comunicação, assim como o Michel Teló fez com o seu "Ai, se eu te pego"? E devolvo esta pergunta com outras quatro e gostaria que você fizesse o exercício de, todas as vezes que pensar em propaganda, aplicar este questionário simples, já que não podemos pensar em sucesso "por acaso":
1. Nesta mensagem que quero comunicar, compartilho um interesse real com as pessoas?
2. A proposta tem relevância cultural?
3. Estou sendo útil para as pessoas?
4. Estou atuando no meu core business?
Se as respostas forem todas afirmativas, vá em frente. As chances das pessoas se engajarem, de fato, com a comunicação que você propõe, tendem a ser bem altas. Se no seu score final já consta apenas um não, volte ao briefing e acredite: a grande ideia está explícita no comportamento do seu consumidor, bem na frente do seu nariz e ela é mais simples do que você imaginava. Ai, se ela te pega!

10 comentários:

Este comentário foi removido pelo autor.

Muita gente não entende o lado interessante das coisa. Como meu professor de português sempre falava: "De tudo tem seu lado bom". Muitos não gostam de Michel Teló, Calypso, Aviões do Forró, etc. mas poucos sabem tirar o lado bom de tudo.
Muito bom.

show de bola
curte minha homepage
http://www.infonoroeste.com.br/

Parabéns pelo blog... show de bola!

Entre no meu depois se gostar clique em curti e deixe um comentario!

Abraço,
PREGUIÇA ALHEIA.
_________________________
http://www.preguicaalheia.com

hahaha
depois de ler tudo aí, e olhar os comentários, cheguei a uma conclusão:
Quando o post é grande, é pq é bom.
E é assim que se vê quem realmente leu ou não, pelos comentários...

Agora sobre o Michel Teló, tbm não sou fã das músicas dele, na verdade de nenhum sertanejo de hoje, sou fã mais daquele antigão. Mas se ele está lá em cima nas mídias, tem seus méritos, e faz sim parte da cultura brasileira...

Retribuindo visita...
Sempre Lesstack

Muito interessante o ponto vista! Não posso deixar de admitir que a marca ou produto criado (Michel Teló), caso vejam dessa forma foi e ainda está sendo muito bem vendida. Muitas das vezes, pequenas ou mesmo grandes empresas possuem marcas e produtos excelentes, mas não conseguem colocá-los no mercado e vendê-los da maneira correta. Seja em qualquer tipo de negócio, é importante criarmos alguns Michels Telós e ganhar dinheiro com isso. No fim das contas todo mundo fica feliz! Quem vende, quem compra e até o próprio produto! rs

Stratege, parabéns pelo trabalho! Está cada vez mais sensacional!

Muito interessante o ponto vista! Não posso deixar de admitir que a marca ou produto criado (Michel Teló), caso vejam dessa forma foi e ainda está sendo muito bem vendida. Muitas das vezes, pequenas ou mesmo grandes empresas possuem marcas e produtos excelentes, mas não conseguem colocá-los no mercado e vendê-los da maneira correta. Seja em qualquer tipo de negócio, é importante criarmos alguns Michels Telós e ganhar dinheiro com isso. No fim das contas todo mundo fica feliz! Quem vende, quem compra e até o próprio produto! rs

Stratege, parabéns pelo trabalho! Está cada vez mais sensacional!

Não gosto muito da música não, mas tenho que concordar que ela é um grande sucesso pelo mundo inteiro, temos que parabenizar toda a acessoria do cantor por esse sucesso mundial, mesmo ela sendo uma música ruim , mas viciante, sei que não foi de sua autoria, ele se espelhou em um funk de uma cantora da Bahia, por isso não gosto da música por não ser uma idéia inovadora, mas sim copiada e modificada em partes. Mas mesmo assim, parabéns por esse sucesso!

A questão é que a música caiu no gosto popular, seja na versão original em português seja na versão inglês....e o texto faz uma afirmação corretíssima, não podemos dizer que hoje Michel Teló não é uma marca de peso no mercado nacional, por mais que não gostamos das músicas cantadas por ele.

Eu admiro artistas que conseguem lançar hits, não é fácil!